julie_2.txt 36 KB

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  1. Do que morre um boi?
  2. De Manduri, os dois homens partem a pé até Monte Alto,
  3. para a casa de um tal de Guillermo Bull,
  4. de origem alemã, sobre o qual o marquês Langbern deu-lhes uma recomendação.
  5. Durante o caminho, feito por uma savana arbustiva,
  6. que fazia jus ao seu nome de «pequeno bosque do inferno»,
  7. Florian foi picado por insetos não identificados, e cujas larvas causar-lhe-iam terríveis comichões nas costas.
  8. Quando Guillermo Bull o viu esfregar-se em sua cadeira à mesa,
  9. ele se inquietaria, o pediria para retirar sua camisa e ficaria pálido ao constatar o tamanho do desastre:
  10. as costas de Florian estavam cheias de buracos nos quais estavam alojados as temíveis larvas,
  11. do tipo mosca de berne, que ataca o gado.
  12. Havia aproximadamente uma centena delas, o suficiente para matar um boi.
  13. Guillermo e Louis começaram imediatamente a extraí-los.
  14. Ao redor de seus pés, as galinhas estavam felizes,
  15. mas eram tantas larvas que elas não conseguiram comer todas.
  16. No entanto, não era momento para rir.
  17. O sucesso da operação era incerto.
  18. Para evitar a infecção, as costas do infeliz foi passada na salmoura.
  19. A queimadura era terrível.
  20. Guillermo levou Louis ao canto: «Teu irmão não vai conseguir sair desta.
  21. Tem um carpinteiro pertinho daqui...» Louis entendeu e foi buscar um caixão.
  22. Florian se recuperaria e encontraria seu irmão,
  23. depois uma quinzena de dias, no pequeno terreno de três alqueires, aproximadamente sete hectares,
  24. que seus camaradas descobriram, neste meio tempo.
  25. Os dois irmãos Portmann construíram uma casinha e começaram o desbravamento e exploração do seu terreno.
  26. Uns italianos moravam não muito longe dali:
  27. Louis gostava de ir encontrá-los à noite para conversar, joga cartas.
  28. Louis era robusto, mas fanfarrão.
  29. Uma aposta estúpida se transformaria em tragédia.
  30. Ele pretendia realizar uma grande façanha, desconhecida até mesmo pelos halterofilistas:
  31. colocar um saco de 60 quilos de arroz sobre os ombros estando sentado no chão, pernas estendidas.
  32. Ele tentou, soltou um gritou muito alto e entrou em colapso, os rins esmagados.
  33. «Eu estava dormindo quando ele chegou, lembra-se Florian.
  34. Algumas horas mais tarde, ele me acordou me dizendo que ele tinha um problema: ele não podia mais urinar.
  35. Ele sofria terrivelmente, gemia, suplicando-me para ir buscar um curandeiro,
  36. um desses médicos do mato que curam com plantas locais.
  37. Eu saí no meio da noite, sabendo vagamente onde eu poderia encontrar um.
  38. Num cruzamento de duas pistas na floresta,
  39. eu não sabia mais para onde eu deveria ir;
  40. então eu fiz o cavalo girar duas ou três vezes ao redor de si mesmo e o deixei ir.
  41. Alguns quilômetros mais distantes havia uma cabana.
  42. Era lá.
  43. Eu bati palmas, o homem saiu.
  44. Ele mostrou-me flores roxas, que a gente encontra na floresta.
  45. «Pega um punhado e você vai ferver, ele me disse, e teu irmão deve fazer um banho de assento com isto.
  46. Dê também para ele beber.»
  47. Eu segui suas indicações e meu irmão pôde urinar rapidamente:
  48. era sangue coagulado que havia saído.
  49. Durante dias ele ficou muito fraco.
  50. Depois, Guillermo passou lá e o levou para a casa dele para que sua esposa o curasse.
  51. Ele se recuperou depois de dois ou três meses.»
  52. Na hotelaria
  53. Encontrando-se sozinho,
  54. Florian plantou algodão,
  55. confiou sua terra para um meeiro suíço-alemão e voltou em São Paulo onde ele trabalharia alguns meses como soldador na empresa de tramway Light,
  56. antes de ser contratado como preparador de carnes no Hotel Esplanada,
  57. o maior estabelecimento da cidade.
  58. Ele obteve este emprego graças a um suíço chamado Bloch,
  59. cujos primos ele conheceu em Orbe, e que era o chefe da cozinha fria no Esplanada.
  60. Florian trabalharia dois anos e iria embora em meio a um escândalo:
  61. uma briga com seu amigo Bloch.
  62. Isso aconteceu nos bastidores duma grande recepção.
  63. O chefe da cozinha fria deixou cair uma barra de gelo no prato de um filé de peixe preparado por Florian.
  64. Ele reclamou usando provavelmente um linguajar chulo,
  65. o outro o empurrou, muito irritado.
  66. A briga esquentou,
  67. Florian, que estava com uma grande faca na mão, cortou,
  68. de uma só vez, todos os botões da roupa do pequeno gordo de rosto avermelhado, que ficou branco.
  69. «Eu sou precisava pedir minhas contas e sair» conclui Florian ainda rindo da cena.
  70. Neste meio tempo, o terreno de Manduri havia sido vendido.
  71. O meeiro tinha apresentado contas duvidosas depois da colheita de algodão,
  72. e Florian não queria correr o risco de ter outra experiência decepcionante.
  73. Quanto ao seu irmão Louis, depois do seu acidente,
  74. ele permaneceu na casa de Guillermo Bull, e quando este morreu,
  75. ele se casou com sua viúva.
  76. Florian voltou a trabalhar em Araras, desta vez como funileiro.
  77. Ele ficaria menos de um ano,
  78. acabando por brigar com o chefe-latoeiro Grossman,
  79. que lhe ofereceu um aumento de salário se ele o contasse o que falavam sobre ele na oficina.
  80. Oficiais palhaços
  81. Nosso vaqueiro solitário retornou para São Paulo,
  82. onde ele alugava um quarto na casa de uma alemã na Rua Sete de Abril.
  83. Mas não por muito tempo!
  84. Um amigo de Jura, Jean Gros, o colocou em contato com um trio infernal,
  85. composto pelo general Pain, proprietário de uma fazenda no Mato Grosso,
  86. do capitão Guasque, boadeiro na fazenda do Rio Negro, e Mario Morel, de origem francesa.
  87. Os três malandros tinham se associado para comprar um saladeiro,
  88. uma instalação para secar carne, e queriam montar os equipamentos frigoríficos em Aquidauana,
  89. perto de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
  90. Não tendo capital, eles compraram a crédito, pensando que estavam fazendo um bom negócio.
  91. Florian era o homem que eles precisavam para iniciar sua empresa.
  92. Eles o contrataram. Florian foi, então, para Aquidauana.
  93. «Quando eu cheguei ao local para montar as máquinas,
  94. elas não estavam lá, e as instalações do saladeiro estavam em um estado lamentável.
  95. Eu consertei a caldeira da máquina a vapor,
  96. o reostato do gerador, eu elevei a torre de água em dois metros para aumentar a pressão,
  97. coloquei uma bomba no rio com um reservatório.
  98. Enfim, eu trabalhei muitos meses, sem ser pago.
  99. Finalmente eu fui reclamar para um agente do Ministério do Trabalho.
  100. A sociedade havia sido rompida e não havia nenhum responsável pela empresa.
  101. Então, eu nunca fui pago por isso.» Sua queixa não agradou a dois ajudantes do trio,
  102. delegados na obra do saladeiro:
  103. o vaqueiro Antonio di Abreu e o carpinteiro Manuel de Frete de Bittencourt,
  104. que supervisionavam os trabalhos.
  105. Medida de retaliação: eles levaram as três vacas que forneciam o leite para a pequena comunidade.
  106. A vingança visava atingir Florian, que precisava do leite para a bezerra que ele recolheu e virou seu companheiro preferido.
  107. «Eu o encontrei em primeiro de janeiro, deitado na frente da minha porta.
  108. Ele estava cheio de larvas por todo o corpo.
  109. Durante dezoito dias eu o carreguei em meus braços.
  110. Um açougueiro de Aquidauana,
  111. que viu a vaca parir, febril e imprópria para consumo, apressou-se em matá-la e deixou a bezerra no pasto.»
  112. Uma bezerra em vez de um cachorro
  113. «Quando eu quis dar-lhe o seu primeiro leite - prossegue Florian visivelmente comovido -
  114. ela não podia abrir a boca de tanta larva que ela tinha em volta dos dentes.
  115. Esta pobre bichinha! Eu quase chorei...
  116. Eu peguei uma folha oca de mamão e fiz um canudinho.
  117. Eu a alimentei assim durante vários dias, enquanto eu massageava seu maxilar com terebintina para que ela pudesse abrí-lo.
  118. Mais tarde, quando nós não tínhamos mais leite, eu continuei a alimentá-la com laranjas doces que eu descascava.»
  119. A bezerra tornou-se como um cachorro para Florian,
  120. o seguindo em todos os lugares, indo até buscá-lo na cafeteria da estação de trem,
  121. a um quilômetro de casa, numa noite em que ele foi a um baile!
  122. Eles não se encontraram para dançar juntos, mas a gente imagina que a anedota tenha divertido toda a região.
  123. Tendo abandonado o saladeiro,
  124. não restava mais dúvida para Florian que desta vez ele não deveria voltar para São Paulo:
  125. ele não iria abandonar sua bezerra.
  126. Ele trabalhou, então, para um italiano, de nome Lockman, que comprou uma usina elétrica perto de Santos,
  127. e que queria desmontá-la,
  128. transportá-la por ferrovia e remontá-la em Aquidauana.
  129. Essa usina tinha uma turbina de vapor Delaunay-Belleville,
  130. que era uma verdadeira maravilha tecnológica.
  131. Nosso homem de múltiplos talentos executava essa tarefa,
  132. e ao mesmo tempo jogava os radioestesistas para achar,
  133. na proximidade, a água necessária para instalar um poço.
  134. Cumprido esse contrato, ele foi empregado por um amigo negro,
  135. o advogado José Sabine, para reformar uma fazenda que estava abandonada por trinta anos, não longe de Aquidauana.
  136. Florian cumpriu esse novo mandato com ajuda de alguns empregados e da... sua bezerra.
  137. Dois anos mais tarde, ele deixa a fazenda, com as cercas novas,
  138. e tendo marcado 255 cabeças de gado com o sinal de José Sabine.
  139. Este ficou encantado: sua propriedade dobrou de valor, e ele poderia vendê-la com um substancial benéfico.
  140. Em seguida, Florian partiu para Corumbá, no Mato Grosso,
  141. deixando sua bezerra aos cuidados de um amigo fazendeiro de Aquidauana,
  142. Gine Mulaton, um cara enorme, pequeno fabricante de cachaça, por vezes, //justement, je ne sais pas...
  143. na suas horas e casado com uma índia do Paraguai, gordinha e baixa, e um pouco bruxa.
  144. Em Corumbá, ele finalmente trabalhou por conta própria,
  145. como reparador de máquinas de todos os tipos e de instalações eléctricas.
  146. «Um dia, eu encontrei por acaso a mulher do Gine.
  147. Ela anunciou-me que seu marido estava morto, sem me confessar que ela o tinha envenenado porque ele a traiu...
  148. Claro que eu a pedi notícias sobre minha bezerra.
  149. Ela virou uma vaca jovem que acabou de parir!» O coração do sensível Florian deu um salto.
  150. Ele pegou o trem para Aquidauana e confiou a vaca e sua bezerra ao responsável de uma das fazendas de José Barboso,
  151. um grande proprietário de terras e empregador de seus amigos,
  152. que possuia a bagatela de sete fazendas cuja a menor é de uma légua quadrado,
  153. ou seja, 360 hectares...
  154. Ele deu igualmente a marca de Florian para os descendentes de sua vaca,
  155. que concordou que as fêmeas retornariam para ele.
  156. «Anos mas tarde, José Barboso morreu e eu fui convocado por seu meio-irmão: eu tinha direito a 45 cabeças de gado.
  157. Ele ofereceu-me um conto de réis e meio por todas;
  158. ele assinou um cheque e eu fui retirar a grana no banco.
  159. Essa bezerra moribunda que eu tinha recolhido,
  160. agradeceu-me bem...»
  161. Foi nesta época que Florian,
  162. decididamente versátil,
  163. foi participar de uma toca de gado,
  164. uma dessas impressionantes transumâncias de cerca de 5000 bois selvagens.
  165. Ele foi convidado, com amigos francês, a uma festa dada na fazenda Santa Rosa,
  166. esse tipo de festa que os criadores sul-americanos adoram e que podem durar uma semana:
  167. é um churrasco permanente,
  168. três ou quatro bois diariamente mortos, assados, comidos e bem regados de uma na alegria geral.
  169. Um dos convidados, Decoros Ortiz, teve uma problema de escoltagem de cinco mulas de sela até Aquidauna, oito dias de viagem.
  170. Florian ofereceu seus serviços.
  171. Nessa época, não havia cercas entre as fazendas, todos agente as atravessavam seguindo a direção geral, em vez das estradas.
  172. Uma noite, ele chegou perto de um casarão da fazenda Proteção.
  173. Ele bateu palmas antes de botar o pé na terra, como era habitual, se não se desejava receber uma bala como saudação.
  174. Uma mulher apareceu.
  175. Ele a perguntou se ele poderia parar lá por uma noite.
  176. «Que bom que você chegou, diz a mulher, porque tem uma suçuarana, que vem matar um bezerro a cada noite.
  177. Porém eu estou sozinha com as crianças...» Seu marido participava de um rodeio, uma reunião do gado para marcação ou venda.
  178. A suçuarana? É uma fera da família dos pumas.
  179. Ela estende uma carabina e uma bala a Florian: «Um garoto mostrou-me o caminho.
  180. A suçuarana estava sobre uma árvore, ao pé da qual uma matilha de cachorros ladrava.
  181. Eu apontei para ela e a abati.
  182. Ela caiu no chão, debateu-se e ainda conseguiu arrancar as tripas dum cachorro que saltou sobre ela.
  183. Eu recuperei o couro dela, a metade da carne e dei a outra metade para a mulher.
  184. Eu parti dois dias mais tarde.»
  185. 5000 cabeças de gado para tocar
  186. Chegando em Aquidauana, ele encontrou um Decoros Ortiz feliz,
  187. que o propôs de acompanhá-lo ao Pantanal, região de criação, para uma toca de gado. Florian aceitou.
  188. «A gente reúne 5000 cabeças de gado no curral,
  189. que nós deixamos durante cinco dias sem beber e nem comer,
  190. senão não tem ninguém que possa dominar tal rebanho, explicou Florian.
  191. Quando nós abrimos a porta do curral,
  192. o berranteiro vai na frente e toca o berrante sem parar para habituar o gado a esse som, que vai guiá-los.
  193. Ele os guia em direção ao primeiro ponto com água, onde os bois vão poder beber.
  194. No primeiro dia, a gente não faz mais do que seis quilômetros.
  195. Depois as etapas se alongam, o berranteiro acelera o ritmo.
  196. No início, são necessários no mínimo 80 vaqueiros para formar o rebanho;
  197. depois é mais fácil, ele é mais disciplinado.
  198. Mas quando os bois sentem uma suçuarana ou um bicho fedendo,
  199. a boiada estoura, e está fora de questão tentar retê-la:
  200. você seria atropelado com teu burro e pisoteado!»
  201. O imenso rebanho atravessava as fazendas, apanhando, na passagem,
  202. o gado que se encontrava em seu caminho, mas perdendo também o gado que saia à francesa.
  203. É o essencial para os homens da boiada chegarem ao término de uma viagem de três meses com o mesmo número de cabeças de gado que na partida.
  204. Elas reencontrariam em grandes pastagens o peso perdido durante a longa transumância.
  205. Bife tártaro
  206. Uma charrete com suprimentos puxada por quarenta bois precedia a boiada.
  207. O carroceiro conhecia as etapas.
  208. Toda manhã, antes da partida, um boi era morto e todo mundo recebia uma parte cortada em finas fatias.
  209. Classicamente a carne crua era colocada embaixo da sela: ela seria cozida pelo calor da mula, salgada por sua transpiração.
  210. Entre um acampamento e outro,
  211. os homens só tinham que tirar uma fatia debaixo das suas bundas,
  212. raspar os pêlos da mula com uma faca e degustar com farinha de mandioca.
  213. Florian, que não era um fresco, experimentava essa vida e participava de várias boiadas até o dia, no qual, no caminho de volta,
  214. ele atravessou com seus companheiros a fazenda Proteção e passou em frente à casa aonde ele tinha matado a suçuarana.
  215. A mulher o reconheceu e lembrou da anedota a seu marido e a todos os boiadeiros.
  216. Os comentários ambíguos
  217. não tardaram e as brincadeiras duvidosas surgiram de todos os lados.
  218. Isso duraria vários dias.
  219. Florian zangou-se:
  220. essa seria sua última boiada, apesar da insistência de Decoros que queria confiá-lo a responsabilidade da próxima.
  221. «Eu disse a ele: não é possível,
  222. se eles continuarem com suas insinuações sujas,
  223. eu vou matar um!» Florian receberia o apelido de Suçuarana, o puma, o que valeu-lhe respeito,
  224. e até mesmo receio, de mais de um pistoleiro (sic).
  225. Florian não gostava muito desse apelido, que o foi, no entanto, algumas vezes útil.
  226. Florian lançou-se, então, numa nova aventura: ele queria procurar diamantes no Mato Grosso,
  227. ele seria garimpeiro. Essa idéia se passava havia muito tempo em sua cabeça: tinha chegado o momento de realizá-la.
  228. «Eu peguei um barco a vapor que torna a subir o rio Paraguai em direção a Cuiabá,
  229. onde eu deixei minhas coisas na casa de um amigo, Georges Pommot, e eu me enfiei nos garimpos de diamantes.»
  230. Salvo por um índio
  231. «Eu fui garimpeiro "muito tanto"...» (sic)
  232. O tom mudou e toda a dureza dessa vida refletia em sua voz.
  233. «Eu era castanho e meus cabelos se tornaram brancos.
  234. Eu tive febres terríveis.
  235. Eu fiquei oito dias sem uma gota d'água, com a febre e a doença do sono,
  236. o coluchon (sic), como a gente chama aqui.
  237. Ela ataca a medula espinhal e a gente fica prostrado como uma galinha chocando seus ovos, até a morte, se ninguém se ocupar de você.
  238. Um dia, um índio da tribo dos Cheben surgiu e achou-me desse jeito, já inconsciente, quase morto.
  239. Ele curou-me com as plantas, as raízes, as misturas das quais ele conhecia o segredo.
  240. A primeira noite, ele partiu depois de ter me friccionado e me feito beber algumas poções.
  241. No outro dia pela manhã, ele voltou e transportou-me até sua casa.
  242. Bartoli, era seu nome. Tinha sido expulsou da sua tribo por dois anos, depois de ter cometido... eu não me lembro mais qual erro.
  243. Ele tinha feito uma roça na floresta, desbravado uma parcela para plantar milho e mandioca.
  244. Eu não entendia a língua da sua tribo, da qual eu conhecia uma particularidade:
  245. eles não batem palmas quando eles chegam em algum lugar, como a gente faz aqui; eles, eles batem o pé na terra.
  246. Eu fiquei três meses com Bartoli.
  247. Sob a influência da doença e da febre,
  248. eu tinha a planta dos pés completamente descascada;
  249. até hoje eu sou terrivelmente sensível.
  250. O índio levou-me finalmente para Gatinho, cidade de garimpeiros chamada atualmente Alto Paraguai.
  251. Um carta do meu amigo Pommot estava à minha espera e dizia: «Eu fiquei sabendo que você está morto e eu não quero acreditar.
  252. Se você está vivo, volte logo para Cuiabá: nossa casa é tua»...» Florian desceu para Cuiabá de caminhão.
  253. Quando ele chegou na casa do seu amigo, este não o reconheceu imediatamente: ele tinha 86 quilos no último encontro deles,
  254. e aquele que tinha chegado, tão magro, não pesava mais que 47 kg. Era só pele e osso.
  255. Quando compreendeu que era Florian, Georges Pommot se desfez em lágrimas.
  256. Depois de três ou quatro meses de convalescença, Florian voltou garimpar, não em Gatinho,
  257. mas a somente uns cinquenta de quilômetros ao norte de Cuiabá, na região de Guia.
  258. Basicamente, o princípio era sempre o mesmo, todo homem tem seu «fronte de serviço» de uma quinzena de metros,
  259. que ele pode explorar o quanto ele quiser.
  260. Com todas as disputas da vizinhança, que nós imaginamos, quando um veio partia para a esquerda ou para a direita.
  261. As disputas, as vigarices e os golpes sujos eram moedas correntes nesse mundo sem perdão dos que procuravam ouro ou pedras preciosas.
  262. Em um determinado momento, Florian pôde comprar um escafandro, para operar no rio; em seguida, ele constituiu uma equipe:
  263. ele colocou à disposição o seu material e alimentava os homens que trabalhavam para ele.
  264. Ele queria ir ainda mais longe, já que ele era um homem de ação.
  265. Expedição na Amazônia
  266. Ele organizou uma expedição pela Amazônia, levando oito homens com ele e encarregando-se de todas as despesas.
  267. Um avião os transportou até Porto Velho,
  268. no Madeira, um grande afluente do rio Amazonas.
  269. De caminhão, e depois de barco, eles subiram o rio Jamari, em Ariquemes,
  270. alugando uma tropa de mula para chegar até Vila de Rondônia,
  271. chamada atualmente de Ji-Paraná.
  272. Eles tornariam a descer o mesmo rio depois de terem garimpado a montante do rio Machado.
  273. «Eu já tinha recolhido bastantes diamantes, ao menos 45 quilates,
  274. lembrou-se Florian. Comigo, havia um suíço, Benjamin Steingruber, um cara enorme que nós chamávamos de Tarzan.
  275. Era um excelente mergulhador, mas ele gostava muito de brigar, de discutir.
  276. Como tinham muitos garimpeiros no local,
  277. eu tinha medo que eles o matassem e eu preferi que nós fôssemos mais para baixo com o escafandro.
  278. Nós fizemos uma canoa e a gente desceu.
  279. Quando nós chegamos perto das corredeiras,
  280. nós nos agarramos aos ramos das árvores que beiravam o rio.
  281. Tarzan, que pilotava, ergueu-se e falou: A gente pode passar.
  282. Eu disse: Eu vejo espuma, que esguicha muito alta! Ele gritou: Não é nada, soltem os ramos! A gente partiu como uma bala.
  283. Com os nossos remos nós não pudemos controlar nada.
  284. A gente voou para cima da queda, que deveria ter de oito à dez metros, a gente perdeu nossa velocidade e a viramos na queda seguinte.
  285. «Nós tínhamos perdido tudo, prosseguiu tristemente Florian:
  286. o escafandro, todo o nosso material, nossos mantimentos, nossos fósforos.
  287. Eu só salvei minha espingarda, que estava presa na canoa e nós recuperámos as caixas de aveia e de gordura.
  288. Os diamantes? Perdemos também:
  289. eles estavam no meu casaco
  290. que eu tinha retirado porque fazia calor e que eu não achei mais...»
  291. A continuação da expedição se transformou na Berezina tropical (catástrofe).
  292. Foram necessários quinzes dias para a miserável equipe chegar ao primeiro seringal (exploração de borracha) a bordo do rio.
  293. Ambiente hostil, com fortes advertências indicadas pelos índios Araras, que interditaram alguns braços do rio.
  294. Os homens sobreviveram comendo uma mistura crua de gordura e aveia, mas eles estavam febris da malária.
  295. E eles se encontravam ainda, sobre uma embarcação podre, a centenas de quilômetros de Tabajara,
  296. onde eles esperavam conseguir um barco para levá-los a Porto Velho.
  297. Felizmente, o proprietário do seringal, Barros, foi generoso.
  298. Eles puderam recuperar a saúde e partir em boas condições,
  299. com uma carta de recomendação direcionada ao governador para facilitar as passagens de avião, e eles irem até Cuiabá.
  300. «Desse jeito, concluiu Florian, depois de meses de peregrinações e esforços, a gente tinha perdido tudo e nos encontrávamos no ponto de partida, com algumas dívidas.»
  301. Florian recomeçou modestamente sua atividade de garimpeiro no seu «fronte de serviço» de quinzes metros de largura, perto de Guia.
  302. Ele ficaria ali ainda por alguns anos, achando certos diamantes, mas sobretudo uma pérola: Dona Eva, sua mulher.
  303. O casamento do garimpeiro
  304. A primeira vez que ele a viu, ela estava a cavalo, com um laço na mão, buscando o gado.
  305. Florian a comunicou que ele tinha visto passar um bicho que possuía tal marca.
  306. Era bem isso. Ele reviu várias vezes essa mulher enérgica e digna; o sangue indígena corria em suas veias.
  307. Não foi fácil cortejá-la, porque seu tio e sua tia,
  308. que a criaram na fazenda deles de Coxipó Açu desde a morte do seus pais,
  309. não queriam que ela convivesse com um desses garimpeiros, cuja a reputação era ruim.
  310. Uma senhora, conhecida como Dona Mariquinha, intrometeu-se, felizmente.
  311. Era uma mulher de grande influência e fortemente respeitada,
  312. que tinha as chave do cofre com as jóias portuguesas da igreja.
  313. Ela tinha muita admiração e reconhecimento por Florian,
  314. que tinha ajudado gentilmente o seu filho a montar uma forja, ensinando-lhe diversas técnicas.
  315. Sua intervenção revelou-se decisiva.
  316. "O casamento civil foi celebrado diante do prefeito de Guia e nós esperamos a passagem do padre para a cerimônia religiosa".
  317. Partos difíceis
  318. Florian tinha 48 anos, Dona Eva, 23 anos, e desta união nasceriam:
  319. Helvecia, em 1954, Blanche Neige, dois anos mais tarde,
  320. depois Guillaume Tell.
  321. Os partos foram sempre difíceis.
  322. O casal habitava no isolado casebre do garimpeiro.
  323. Para a primogênita, as dificuldades encontradas por Dona Eva obrigaram Florian a ir buscar,
  324. desesperadamente, no meio da noite,
  325. a alguns quilômetros dentro da floresta e sob uma chuva torrencial,
  326. uma velha parteira, que ele teve até que carregar em seus braços para atravessar os cursos de água em fúria.
  327. Essa percebeu, na cabeceira de Dona Eva, que a situação ultrapassava suas competências.
  328. Era necessário chamar uma ambulância e transportar a grávida em trabalho de parto ao hospital de Cuiabá.
  329. "A gente a carregou primeiramente até a estrada, que era bem longe, numa rede suspendida por uma vara.
  330. A ambulância não chegou, porque havia sido requisitada para uma turnê eleitoral.
  331. Quando Dona Eva chegou ao hospital, foi necessário recorrer ao fórceps e ela deu à luz duas horas mais tarde.
  332. Para a pequena Blanche Neige, que tornou-se mais comodamente Bianca nas bocas dos seus chegados,
  333. o cenário começou da mesma maneira. Mas a velha parteira pôde exercer seus talentos até o final,
  334. e a criança chegou ao mundo em uma escola vazia,
  335. perto da «casa» que Florian estava construindo para sua família.
  336. Um drama
  337. E depois, haveria um drama.
  338. Dona Eva esperava uma terceira criança.
  339. «Foi minha culpa, se ele está morto, desabafa Florian, com a voz entristecida.
  340. Eu jamais deveria tê-la deixado...
  341. Uma máquina para montar, um trabalho urgente... Eu tinha dito: eu não vou poder ir, minha mulher vai dar à luz.
  342. Então meu vizinho propôs-me de levá-la à casa dele, sua própria mulher poderia ocupar-se dela.
  343. Uma noite, suas crianças queriam fazer uma brincadeira,
  344. pintando o rosto e entrando subitamente no quarto no qual Eva descansava, com Bianca.
  345. A pequena assustou-se e gritou.
  346. Eva virou-se bruscamente.
  347. Em sua barriga, o bebê não aguentou este choque.
  348. Eles foram buscar-me no canteiro de obra:
  349. Tua mulher está no hospital e ela não está bem.
  350. Eu peguei um ônibus.
  351. O médico tinha feito uma cesariana.
  352. O pequeno Guillermo Tell sobreviveu três dias.»
  353. Mas tarde, em 1964, Eva e Florian adotaram um menino, um bebê de duas semanas,
  354. embalado em jornais, doente e abandonado em frente à sua porta, no primeiro dia do ano.
  355. Eles o dariam o mesmo nome de Guilherme Tell.
  356. Neste meio tempo,
  357. episódios dramáticos e aventureiros
  358. tiveram lugar em um contexto faroeste dos impiedosos e violentos garimpeiros.
  359. Perto de Guia, o chefe de família que Florian se tornou,
  360. instalou os seus em um casebre um pouco mais confortável que sua casa da época em que era solteiro.
  361. Ele possuia cavalos, uma vaca e alguns animais pequenos,
  362. mas vivia do seu trabalho de garimpeiro:
  363. incessante lavagem das pedras,
  364. dos cascalhos; peneiras de várias grossuras que ele tinha que girar com as duas mãos para,
  365. às vezes, encontrar pedras preciosas, que eram mais pesadas e ficavam ao centro.
  366. A região começou a ficar conhecida e concorrida.
  367. As pessoas empurravam-se na disputa.
  368. Florian teve sorte, seus vizinhos não.
  369. Dois irmãos de origem italiana, instalados, havia pouco tempo,
  370. justamente ao lado da sua zona de exploração,
  371. praticamente não encontraram diamantes e começaram a invadir o domínio de Florian, contestando os limites.
  372. Esse tipo de conflito é quotidiano,
  373. e dura pouco ou termina mal.
  374. Avisos, bate-boca dar broncas,
  375. todos disputavam os montes de cascalhos e acabavam saindo na porrada.
  376. Florian não era um tipo de pessoa frágil e seus vizinhos saíram correndo
  377. de medo, humilhados e furiosos.
  378. Um dia, Florian foi fazer compras em Guia, e então deu-se a crônica de uma tentativa de assassinato anunciado.
  379. Os dois italianos tinham dito que eles queriam sua pele.
  380. A oportunidade se apresentou.
  381. Enquanto ele fazia suas compras, ele conversava em uma loja com um tio da sua mulher,
  382. Sirio, depois com um outro parente na padaria, a situação se complica.
  383. Só faltava a música do Ennio Morricone.
  384. Florian não tinha nascido ontem e sabia usar sua pistola quando se tratava de salvar sua pele;
  385. ele a tinha perto de sua mão, destravada, por segurança.
  386. Quando ele atravessou a praça para encontrar Sirio,
  387. que o esperava na churrascaria,
  388. ele foi cercado.
  389. Em menos tempo do que é necessário para contar isto
  390. um italiano é abatido, ferido no flanco e nas pernas,
  391. e o outro também, atingido em um braço e em uma perna.
  392. Florian não teve nem um arranhão:
  393. seus agressores tinham riscado cruzes em suas balas,
  394. para que elas tivessem mais efeito no impacto,
  395. mas esqueceram-se de que, com a distância, a precisão do tiro seria nula.
  396. Quando Florian pegou na garganta do seu adversário, o menos atingido,
  397. e preparou-se para estrangulá-lo,
  398. o italiano conseguiu atirar à queima-roupa uma bala na cabeça de Florian.
  399. «Toca aqui, ainda tem o buraco!» Trinta anos mais tarde,
  400. o bom velho miraculado ainda carrega as cicatrizes, entre a testa e o cume do seu crânio:
  401. um sulco no qual nós, de fato, podemos colocar o dedo! Os três feridos foram levados ao hospital de Cuiabá.
  402. Os dois irmãos italianos saíram rapidamente de lá e puderam acionar seus contatos para oprimir Florian,
  403. que seria acusado de tentativa de assassinato.
  404. Entretanto, foi prematuro querer encarcerá-lo e trazê-lo à justiça, porque ele estava intransportável.
  405. Eles o trepanaram e retiraram três pedaços de bala de calibre 44.
  406. Dois agentes da polícia foram postos de guarda na porta do hospital.
  407. Uma sorte para o infeliz: um do seus amigos,
  408. o padre Pedro Lachat, originário de Jura, foi avisado e acionou a soneta da solidariedade.
  409. Florian tinha inimigos mortais na cidade, mas também amigos leais, até na polícia.
  410. Por um lado, alguns juraram que esse inimigo público número um deveria ser morto de qualquer maneira,
  411. respeitando ou não os processos judiciais, pouco importava!
  412. Outros, perfeitamente conscientes dessas funestas intenções,
  413. estavam determinados a tirá-lo dessa enrascada.
  414. Esses últimos foram bem sucedidos em sua tentativa, antes que os primeiros conseguissem colocar seus planos em prática.
  415. Fuga espectacular
  416. Foi desse jeito que Florian, já quase recuperado,
  417. pôde escapar do hospital, em um táxi, graças à seu amigo Lachat,
  418. na frente de todos.
  419. Depois ele ficaria escondido na casa do Georges Pommot,
  420. transferência que tornou infrutífera a perseguição operada,
  421. no dia seguinte, na casa de seu amigo originário de Jura.
  422. Enfim, o major Maier, seu amigo delegado de polícia, o entregaria, para qualquer fim útil, uma pistola e balas,
  423. antes dele mesmo organizar uma sensacional tática de distração,
  424. para facilitar a partida de Florian em avião, para o Estado vizinho de Goiás:
  425. ele provocou uma evasão coletiva da prisão de Cuiabá,
  426. que mobilizaria todas as forças da polícia.
  427. Durante esse tempo, disfarçado e munido de um bilhete com um falso nome, Florian voaria para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul,
  428. pegaria o trem para Três Lagoas, subiria para Cassilândia, para enfim chegar ao Estado de Goiás e ingressar em Jataí.
  429. Esse enorme desvio tinha uma razão: pela via direta, a fronteira foi fechada para impedir a partida do perigoso personagem.
  430. Florian trabalharia em Jataí para um fabricante de moinho e de máquinas para descascar o café e o arroz, um Carloni, que era seu vizinho em Guia.
  431. Dois meses mais tarde, ele iria recuperar sua mulher e suas filhas, refugiadas na casa do padre Lachat em Cuiabá,
  432. expedição audaciosa num Estado no qual ele ainda era considerado como um inimigo público número um, e, consequentemente, era procurado.
  433. Mas Florian tinha, de fato,
  434. um anjo da guarda, e ele escaparia uma outra vez.
  435. Jataí seria a penúltima etapa do seu vasto périplo brasileiro.
  436. Ele ficaria lá por três ou quatro anos,
  437. e naturalmente
  438. ele seria atraído para uma imensa obra, da qual todo mundo falava muito: a construção da nova capital, Brasília.
  439. O então futuro Distrito Federal era um perímetro enclavado no Estado de Goiás, a 500 quilômetros em linha reta.
  440. Ele não resistiria a este chamado.
  441. Em 1958, ele instalou sua família num hangar de Taguatinga, cidade satélite de Brasília, ainda em estado de vasto terreno vago.
  442. Ele recebeu uma concessão para construir uma casa de tábuas, a primeira de um novo loteamento.
  443. Ele precisaria de quinze anos para acabar sua casa.
  444. Ele trabalhou em todos os lado, em todas as áreas, e foram muitas as suas especialidades:
  445. hidráulica, electricidade, soldadura, mecânica, etc.
  446. Ele participou do término da construção do hospital de Taguatinga, cuja a irmã diretora seria-lhe muito tempo grata por ele ter
  447. reparado o teto quebrado da capela, que era algo além da suas atribuições.
  448. Ele se lembrava de 1960, quando ela foi transferida ao hospital Sarah Kubitschek:
  449. ela fez contratarem Florian nesse grande estabelecimento da capital, o mais importante hospital ortopédico da América Latina.
  450. Vinte oito anos mais tarde, ele ainda estaria lá...
  451. Ele montou uma oficina ortopédica, pela qual ele seria responsável.
  452. Enviaram-no para aperfeiçoar-se em São Paulo.
  453. «A primeira prótese que eu fabriquei, lembra-se Florian, era para um jovem suíço de Nova Friburgo!»
  454. Ele ocupava-se também da manutenção dos aparelhos das instalações elétricas.
  455. Quando chegou a hora da aposentadoria, ele deixou o hospital como queria a lei.
  456. Ele efetuou trabalhos na embaixada da Suíça, durante quatro meses, até o diretor do hospital,
  457. o Dr. Aloysio Campos da Paz, o chamar de volta.
  458. Uma outra regra foi «esquecida», aquela que queria que dois membros da mesma família não pudessem ser simultaneamente empregados no Sarah Kubitschek.
  459. Mas Florian, considerado como o bom Deus encarnado nesse universo hospitaleiro, era definitivamente uma exceção.
  460. Assim o queria a direção, aprovada pelo pessoal.
  461. Um contador de histórias no hospital
  462. Como ele treinou seu sucessor,
  463. «um jovem que era inteligente de mais para manejar somente uma vassoura.»,
  464. Florian não recomeçou o serviço na oficina ortopédica, ele ocupou-se da manutenção.
  465. Mas, em seguinda, ele foi operado de uma hérnia,
  466. depois de uma segunda hérnia,
  467. e o médico o proibiu de subir sobre escadas e carregar cargas.
  468. Então, o que ele fazia de tempos em tempos tornou-se sua atividade principal:
  469. ele contava as histórias para as crianças,
  470. e esse avô virou o raio de sol diário dos pequenos deficientes.
  471. A equipe os reuniam na enfermaria e,
  472. desde que ele chegava, ecoavam os «papai Noel! papai Noel!»
  473. A maior parte estava lá por longas estadias, às vezes,
  474. depois um acidente, ou em razão de uma má-formação, ou de uma paralisia.
  475. Quando Florian percorria os quartos,
  476. todos os rostos iluminavam-se, e, somente os infelizes com hidrocefalia,
  477. com as cabeças pesadas demais para se voltarem à sua passagem, que não se alegravam visivelmente com sua presença.
  478. E o rei das crianças passava de um por um murmurando uma benção.
  479. Florian virou o papai Noel oficial de Brasília nos anos 70, tendo respondido a um anúncio.
  480. «Os colegas do trabalho me encorajaram; eles estavam certos de que eu seria escolhido.
  481. Como eu gostava muito das crianças, eu me apresentei, e depois de dois testes, fui selecionado entre uns vinte candidatos.
  482. No início eu estava sozinho, mas isso representava muito trabalho durante quase todo o mês de dezembro,
  483. com algumas vezes quatro apresentações por dia.
  484. Agora eu tenho ajuda.» O papai Noel de Brasília ia distribuir as balinhas,
  485. os presentes e abençoar as crianças em todos os bairros da capital e das cidades do Distrito Federal.
  486. Ele sempre se deslocava em helicóptero.
  487. «Um dia nós tivemos uma pane e a gente teve que aterrissar urgente atrás o palácio presidencial.
  488. Os guardas quase nos abateram, acreditando em um golpe de Estado ou um rapto.
  489. O piloto saiu gritando: Parem! É o papai Noel!
  490. O presidente botou imediatamente um outro helicóptero à nossa disposição.»
  491. Diante de uma vida muita movimentada,
  492. feita de aventuras, de violência, de arruaças, por vezes ensanguentadas, ele estava agora em um mundo de paz.
  493. O que emanava desse velho, que,
  494. para chegar nesse idade, teve que, na ocasião,
  495. atirar mais rápido que seu adversário,
  496. era uma grande calma interior e uma doçura infinita.
  497. Era um homem muito sensível,
  498. que tinha facilmente lágrimas nos olhos,
  499. na presença ou na evocação de uma miséria humana.
  500. Se fosse necessária
  501. uma prova suplementar dessa natureza fundamentalmente generosa de Florian,
  502. bastaria entrar na sua casa.
  503. Quem nós encontramos?
  504. Blanche Neige
  505. que ainda morava por mais algum tempo com seus pais - Helvecia e Guilherme Tell já haviam saído do ninho.
  506. Mas quem era essa pequena de treze anos,
  507. fazendo seus deveres, enquanto Dona Eva preparava o almoço no pátio?
  508. Era Michela, a filha de uma pobre muda que eles acolheram em um dia de chuva;
  509. esta andava por aí, expulsa da casa dela, porque ela estava grávida.
  510. Ninguém a queria mais.
  511. Eles a abrigaram, juntamente com seu bebê.
  512. Depois de dois anos, a mãe partiu; ela aparecia de vez em quando.
  513. Claro que Michela ficou:
  514. «Eu a tive em meus braços desde o dia de seu nascimento, disse Florian, olhando-a gentilmente.
  515. Nós estamos responsáveis por ela até seus dezoito anos.»
  516. E aquele pequeno toquinho de gente que trotava alegremente e dava sempre pitaco na conversa?
  517. Era Marieta.
  518. Sua mãe a abandou em uma vizinha para ir vender “seus charmes” na Serra Pelada, onde o trabalhou não faltava.
  519. «Mas essa vizinha trabalhava e não podia ocupar-se dessa pequeninha, explicou Florian, com soluços na voz.
  520. Ela ficava sozinha todo o dia e isso durou vários meses.
  521. Minha mulher teve pena dela e a pegou.
  522. Ela está conosco agora.
  523. Ela é bonitinha, não? Pobre menina!»
  524. Florian sacodia a cabeça olhando a pequena menina com um sorriso deslumbrante:
  525. «É magnífico poder ocupar-se das crianças desse jeito.
  526. Mas quantos são eles a viver uma infância de tormentos e de miséria neste mundo?
  527. Isso me dá pena!
  528. As pessoas se dizem humanas, mas, no entanto, eu não encontrei muitas.»